Alzheimer

© Márcia Sanchez Luz

Em memória de minha mãe, Nilze, que ontem fez sua passagem e nos deixa cheios de saudades…

 





“Não vou sentir saudade.
Vou guardar você no meu coração.”

Francisco Sanchez








O olhar distante, a fala deprimida,

uma canção antiga na vitrola,
a busca inútil no vazio da vida
que traz no vento a dor que desconsola.

Chegando a noite veste a camisola

e nutre a espera, como se fingida
fosse em querer lembrar porque se isola
de um mundo onde a memória é já perdida.

De manhã cedo os pássaros deslizam

por sobre seu jardim para avisar
que o dia que chegou é na verdade

um tempo onde a palavra é só saudade

de um astro que não pode mais brilhar.
Recordações agora se anarquizam…

 

(Do livro “Quero-te ao som do silêncio!“)

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Ruth Escobar, por Isabel Vasconcellos



A lembrança mais marcante que tenho de Ruth Escobar – respeitada, é claro, toda a inestimável contribuição que ela tem dado à cultura brasileira, ao teatro e à luta política das mulheres – é a de uma reunião num partido político, há muitos anos atrás, onde ela disse que as mulheres se negavam a ir à política porque consideravam-na “suja” demais. No entanto – dizia ela – é preciso que as mulheres tomem coragem e metam a mão na merda.
Ruth era conhecida, no tempo da Ditadura, pelos censores, como “a portuguesa louca”. Ela tinha um burro, que ficava em seu teatro, a quem chamou de “Ernesto” , o mesmo nome do General Geisel, que ocupava a presidência do país por eleição indireta e fazia as vezes de ditador. Juca Chaves também ironizava Geisel, de origem germânica, dizendo que o Brasil era governado por um pastor alemão.
Maria Ruth dos Santos nasceu no Porto, filha de uma costureira e pai desconhecido. Veio para o Brasil aos 18 anos, em 1951. Casou-se com o dramaturgo, Carlos Henrique Escobar e, com ele, foi para a França em 1958,estudar interpretação.
Ao voltar ao Brasil, Ruth montou sua própria companhia teatral e, em 1964, tinha um “teatro” num ônibus e levava as peças ao povo mais pobre da perfireria paulistana. É de 1964 também a fundação do Teatro Ruth Escobar, um marco na história cultural da cidade.
Separou-se de Escobar e se casou com Wladimir Cardoso, um arquiteto que acabou se tornando o seu cenógrafo.
“Cemitério de Automóveis”, em 1968 e “O Balcão” de Jean Genet, são montagens teatrais que elevam o nome de Ruth às alturas no cenário nacional. “O Balcão” levou todos os prêmios daquele ano.
Nos anos 1970 o teatro brasileiro cresceu. Mas com peças vazias, de puro entretenimento e que apostavam sua bilheteria na presença, em cena, de astros da televisão. Mas não foi assim no Ruth Escobar, que continuava a apresentar peças de primeiríssima linha.
Durante toda a Ditadura Militar, Ruth e seu teatro sofreram atentados, ameaças de bombas, até de assassinato. Em vez de se apavorar, Ruth continuava produzindo, discursando na rua e invadindo gabinetes de autoridades para protestar contra o regime militar, isso numa época que ninguém ousava reclamar nem da fila do banco.
Na década de 1980 o teatro ficou em segundo plano na sua vida. Agora, a bola da vez era a política. Ruth foi eleita deputada estadual por duas vezes consecutivas e, em 1985, tornou-se a primeira presidente do recém criado Conselho Nacional dos Direitos da Mulher.
Lançou o livro “Maria Ruth – Uma Autobiografia”, em 1987, reafirmamdo sua postura de vanguarda e mostrando que toda a sua atividade cultural está ligada ao seu pensamento político.
Voltou ao Teatro em 1990, produzindo sucessos internacionais.
Mais tarde, em 1997,vendeu seu teatro à Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Estado de São Paulo (apetesp), casou-se com um americano e foi morar nos States.
Quando voltou, comprou uma briga feia para reaver o teatro.
Ruth teve cinco filhos, de três casamentos diferentes.
Em 2000, recebeu o diagnóstico de Alzheimer. Em 2006 foi interditada judicialmente por uma filha, que temia os aproveitadores que poderiam arrancar de uma Ruth já não tão lúcida todos os seus bens.
Hoje seus bens estão indispníveis por ordem judicial e ela, sem recursos, é obrigada a recorrer ao SUS para tratar de sua saúde debilitada. Dizem que a justiça é cega.
Isabel Vasconcellos é escritora, jornalista, produtora e apresentadora de Rádio e TV